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Crime violento é tabu em
presídio feminino
de Isabel Murray
19 de novembro 2001 - (BBC Brasil) Crimes violentos
são um tabu dentro dos presídios femininos.
Quem cometeu não admite, não quer
contar.
Resta imaginar o que a detenta fez pelo tempo de
prisão a que foi condenada.
"Eu fui sentenciada a 41 anos, caiu para 21,
estou aguardando um novo júri", conta Cintia de Jesus,
de 30 anos, que está na penitenciária de São
Paulo.
Menos de 1%
Para se ter uma idéia, homicídios
qualificados – como por exemplo pagar para alguém ser
morto – dá até 30 anos de prisão.
O Departamento de Homicídios e de Proteção
à Pessoa da Polícia Civil do Estado de São
Paulo afirma que, no ano 2000, aconteceram 5.000 homicídios
na capital.
Mais de 700 casos foram analisados, e 125 tiveram
a autoria estabelecida, sendo que alguns deles foram cometidos por
mais de uma pessoa.
"Posso lhe afirmar que 138 autores são
do sexo masculino e apenas 1 do sexo feminino", declarou o
diretor do departamento Domingos Paulo Neto.
"Ou seja, 0,7% dos casos analisados foram atribuídos
a mulheres e 97,2% aos homens. Então, a mulher nesse universo
analisado não chegou a 1%."
Mas, mesmo que a mulher não seja autora do
crime, ela pode ter outro tipo de participação.
"Dizem que a mulher não pratica o homicídio,
ela manda praticar. Principalmente nos casos passionais", diz
Domingos Paulo Neto.
Histórico de abusos
Na penitenciária feminina do Butantã,
em São Paulo, estão 400 detentas. Cerca de 20% delas
estão presas por homicídio. E 90% desse total matou
o marido.
"Existe todo um histórico de agressão
por parte do marido, às vezes até ameaça de
morte mesmo. Aí elas acabam matando. Dá um estouro
e elas matam", diz a psicóloga Cíntia Ferrari,
que atende as detentas no Butantã.
A psicóloga diz que normalmente os homicídios
acontecem após anos de agressões.
"Às vezes, elas têm histórias
de abuso na adolescência, por parte de pai e mãe, aí
elas repetem a mesma história de vida com o marido e chegam
a esse ponto", completa Cíntia.
Fora esses casos extremos, é difícil
uma mulher entrar para o mundo do crime isoladamente. O mais comum
é elas atuarem no papel de parceiras.
Seqüestro
Fátima Almeida, funcionária do clube
Pinheiros em São Paulo, foi seqüestrada em fevereiro
de 2000 e sofreu nas mãos de duas adolescentes, quando parou
em um sinal fechado à noite.
"No que eu parei, olhei do lado e vi uma arma
apontada para mim", conta Fátima, que foi forçada
a abrir a porta do carro.
Dois rapazes armados estavam acompanhados por duas
moças.
Fátima foi forçada a passar para o
banco de trás enquanto um dos rapazes assumiu a direção
do carro.
Os seqüestradores pegaram os cartões
de crédito de Fátima e exigiram a senha do banco.
Mais do que a violência, Fátima diz
que ficou impressionada com a atitude das garotas.
"Tinham 16 e 17 anos, eram menores. Uma das
meninas ficou na frente com eles, com uma arma, porque se acontecer
alguma coisa elas atiram. E elas me disseram que, como eram menores
de idade, só ficam um tempo na Febem e logo saem de lá",
contou Fátima.
Os seqüestradores rodaram com o carro por algum
tempo e acabaram levando Fátima para o cativeiro, numa favela.
Lá, os rapazes saíram e a deixaram
com as garotas. Fátima diz que as meninas ameaçaram
fazer roleta russa com ela, mas ela conseguiu conversar com as meninas.
"Tentei conversar com elas, fazer amizade,
barganhei pela minha vida", diz Fátima.
Banalidade
"Eu perguntava o que elas iam fazer comigo,
e elas diziam que eu era muito calma... mas cada hora que aquela
porta abria, era terrível, eu achava, é agora que
vão dar um fim em mim."
Depois de passar a noite toda nesse clima de pavor,
somente na manhã seguinte. Fátima foi libertada, com
os olhos vendados, e levada para o mesmo local onde tinha sido seqüestrada.
"Meu sentimento em relação às
meninas é de dó, muita dó. Porque, para elas,
matar e morrer é a mesma coisa. É uma coisa banal,
foi isso que percebi durante o tempo que conversei com elas. E não
sei se ainda estão vivas hoje", completa Fátima.
A opinião de Fátima é compartilhada
por Poliana, de 16 anos, que está na Febem.
"O caminho dessa vida só leva ao cemitério,
à cadeia ou ao hospital."
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2001/011115_prisaocrime.shtml
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