Crimes contra a mulher
Por Mariana Leal
October 29, 2004 - (Sexo Oral) Estupro, abuso psicológico,
promessa de emprego em troca de favores sexuais, espancamento.
A violência contra a mulher acontece de várias formas
e em todos os lugares - nas ruas, em suas próprias casas,
em presídios, em empresas. Nesta edição de
Sexo Oral, quatro mulheres e, pela primeira vez, um homem - convidado
por elas e carinhosamente definido como "a cota masculina"
- debateram o tema. Num bate-papo descontraído na Rádio
Madame Satã, que funciona na Lapa, no Centro do Rio, eles
contaram suas experiências sobre o assunto.
Participaram deste debate:
Rosane Barbosa, a Negra Rô, 28
anos, rapper, moradora de Bonsucesso.
Preta Gê, 47 anos, técnica de laboratório aposentada,
moradora do Engenho Novo.
Célia Regina, 40 anos, gerente do Fundo Afro da ONG CEAP
(Centro de Articulação de Populações
Marginalizadas), moradora do Centro.
Taciane Cristina, 18 anos, dona de casa e voluntária do projeto
Fortalece Aí!, moradora da Frei Caneca.
Fábio Campos, o DJ Mosca, 23 anos, morador da Frei Caneca.
Beleza Pura – Queria começar o debate sobre o que vocês
entendem como violência contra a mulher.
Negra Rô - O que eu acho que
também seja violência contra a mulher é a violência
psicológica, até escrevi um texto sobre isso. Esta
é a pior de todas. O cara dizia para a mulher “você
é feia, é horrorosa”. Passei por isso quando
eu era casada. Meu companheiro dizia que eu nunca ia conseguir cantar
– hoje eu canto rap –, que eu era horrível cantando.
Fiquei com este complexo de que eu nunca ia conseguir cantar. Depois,
conheci uma outra pessoa que me incentivou a continuar e se não
fosse esta pessoa, talvez nem estivesse cantando hoje. Para mim,
era uma violência psicológica. Tinha até nervoso
de ficar perto dele, quando ele ia lá em casa, já
ficava até com medo, ele me colocava para baixo. Foi uma
violência psicológica, a pior de todas.
Preta Gê – Para mim, foi
o que eu vivi. Apanhando, sendo humilhada e agredida. Enfim, acho
que quando a gente encontra uma má pessoa e que parte para
a violência, acaba vivendo situações assim.
Hoje, nem posso dizer nada, graças a Deus, sou até
feliz. Posso ser capaz de eu mesma partir para a violência.
(risos) É capaz de eu fazer a violência diante de uma
situação de ameaça.
Beleza Pura - Como vocês vêem
estes comentários maldosos e, às vezes depreciativos,
você é feia, é gorda, ou você não
pode, não consegue etc. e tal?
Preta Gê - Eu nunca entrei nessa...
Minha cabeça é muito eu. Mas quando ele vinha para
cima de mim para bater, eu não tinha como fugir, ele era
o dobro de meu tamanho. Vinha com um socão, explodindo na
parede. A neném, minha última filha a nascer, veio
ao mundo depois de um pontapé. Era para nascer com nove meses,
nasceu com oito.
Beleza Pura - Era o seu companheiro?
Preta Gê - Esse era o meu esposo,
casado no civil e no religioso. Foi um ano e nove meses de casamento,
só. Hoje eu convivo com uma pessoa há 14 anos e que
nunca me encostou um dedo. Então, depende muito da criação.
Beleza Pura - E você, Mosca,
o que acha que é a violência contra a mulher?
Mosca - Bom, eu sou um homem e nunca
sofri violência contra a mulher. Mas presenciei o sofrimento
de muitas mulheres com atitudes violentas, inclusive a minha mãe.
Não só o meu pai, que era um cara que usava muita
droga e bebia. Minha mãe foi muito explorada, até
mesmo no trabalho. Ela ia trabalhar em casa de família e
tinha patrões que queriam abusar dela sexualmente, arrumava
briga por causa disso e acabava perdendo o emprego. Há um
tempo, a mulher não tinha voz ativa, não tinha muito
poder e o que valia mais era a palavra do homem. Então, eu
vi muita violência. Minha mãe perdeu o neném
por causa de meu pai. Ele bateu muito nela e só fiquei sabendo
disso agora aos 22 anos. Ela nunca tinha me contado porque eu já
tinha muita raiva dele, muita ida minha para a rua foi por causa
disso. A violência dentro de casa me levou a ser menor de
rua. E acho que a mulher agora está tendo mais voz ativa,
é muito triste saber que as mulheres passaram muitas coisas
e só agora estão conseguindo conquistar o espaço
delas. Eu nem tenho muito a dizer... a não ser minha experiência
própria, por ter visto minha mãe sofrendo, as minhas
irmãs. O meu pai é agressivo até hoje, continua
consumindo drogas. Existem diversas formas de agressão contra
a mulher, dentro de casa, às vezes o próprio estupro.
Tenho muitas conhecidas jovens que saíram de casa por causa
de estupro de pais, de padrastos. Tem até uma história
de uma menina que ia ter um filho de próprio pai.
Taciane: lei para proteger mulheres
Preta Gê – O que é
isso...
Beleza Pura – Como vocês
encaram a gestação de um filho nessas condições,
acham que a mulher tem o direito de tirar?
Negra Rô - Eu acho que sim.
Taciane – São casos e
casos, tem diversas mulheres por aí que tiram, que deixam
os bebês no hospital. Acho que deveria ter uma lei para proteger
as mulheres que não queiram. Imagine aos 14 anos engravidar
depois de um estupro do padrasto.
Mosca – Ou do próprio
pai.
Taciane – Ou até pelo
pai!
Beleza Pura - E quando é uma
relação sexual forçada pelo marido?
Mosca – É um caso de estupro!
Negra Rô - Ela não deve
ter o filho se não quiser!
Mosca - Sou contra o aborto, da mulher
chegar lá, faz o fuc-fuc fac-fac, depois descobrir que está
grávida e tirar o neném. Então sou contra.
Mas se ela é pega à força, tem que ter uma
lei que garanta o direito ao aborto. A não ser que ela queira
ter o filho, afinal, a criança não tem nada a ver
com isso. Apesar de ter sido um traste que pegou ela e abusou de
seu corpo.
Beleza Pura – Mas muitas vezes
os casos de violência sexual são praticados por pessoas
conhecidas, dentro da própria família, às vezes
o próprio marido... O que vocês acham?
Preta Gê - Foi o meu caso, foi
um estupro. Eu estava com um bebê de dois meses e já
estava grávida de novo. Hoje em dia, ele quer pedir louvor
ao Senhor, quer ser pastor, quer dizer, bonito, né? Maltrata
a mulher, bate, faz o que bem entende, entendeu? E aí quando
um dia surge uma dor qualquer e ele vai para a Igreja. Que igreja
é essa que aceita? Acho que tudo tem perdão, mas é
a pessoa que tem que se limpar. Continua fazendo a maldade.
Mosca – É, isso é
errado.
Negra Rô - E teve um político
que uma vez falou que as mulheres eram estupradas porque queriam.
E que quando a mulher fosse estuprada era para ela relaxar e gozar.
Este político, que eu não vou falar o nome, disse
isso (Numa entrevista, em sua campanha para a presidência
em 1989, Paulo Maluf disse: “Se está com desejo sexual,
estupra, mas não mata”).
Taciane – E tem casos da filha
ser estuprada pelo companheiro da mãe e quando ela fica sabendo,
ainda ameaça a menina.
Beleza Pura - E que motivos vocês
suspeitam que podem levar uma mãe a agir deste jeito?
Preta Gê - Acho que é
doente mental.
Célia e DJ Mosca: violência
e bebida
Mosca - Existem vários motivos,
pode ser o caso dela não querer expor a família. Tem
muita coisa que esconde.
Taciane – É um amor, um
amor tal, mas não protege a filha adolescente?
Preta Gê - E, às vezes, a mãe não quer
perder aquele homem. Ele vai acabar estuprando a filha mesmo e ainda
vai largar ela para ficar com outra mulher.
Beleza Pura – E que outras maneiras
de violentar as mulheres existem? Por exemplo, quando a gente está
buscando uma colocação no mercado de trabalho, algumas
vezes, o critério de seleção não vai
muito pela competência, mas por outros atributos...
Preta Gê - Eu tenho o problema
da cor e da idade. Eu já sou aposentada, mas a cor e a idade...
parece que eu sou uma inválida. É melhor até
o governo providenciar logo uma carteirinha, olha é feia
demais, é muito preta, é velha para caramba. Podia
pagar a gente, pelo menos por isso, pela discriminação.
Porque ser preta, velha, peraí! Então vou abrir um
terreiro de santo para dar consulta que eu vou ganhar mais do que
ficar sendo esculachada. (risos) Vou ver um negócio e ouço
“Ah, não pode, a senhora já passou da idade”.
Estive agora trabalhando na Globo. Estava todo mundo me adorando.
Aí chegou a hora de ver a carteirinha, eu não posso
assinar carteira, sou aposentada. Mas iam firmar um contrato...
E fui lá no psicólogo... e pensei, será que
vão me achar maluca? Já sou louca, né? (risos)
Mas neste dia me comportei, penteei o cabelinho, botei um vestidinho,
sentei lá. Olha a postura! (risos) Todo mundo conversando
e eu calada, só com a mãozinha assim (mostra um jeito
super comportado de sentar). Eles colocaram um código no
papel, que eu sei que é código porque eu trabalhava
lá dentro. Como é que eu servia para ganhar pouco,
e no momento que ia ter uma coisa justa, eu não servia mais?
Então, eles acham que eu sou velha e babaca? Se aproveitaram
de mim, porque trabalhava como camareira no Projac (complexo de
estúdios de gravação da TV Globo) e ainda por
cima ainda passava roupa. Trabalhar com aquelas mulheres bestas
que têm lá dentro não é mole. E na hora
de assinar o contrato, eu era velha, feia e preta. Sofri discriminação.
Célia Regina – Penso em
várias coisas, a violência está em todas as
camadas sociais. Nas camadas populares isso vem mais à tona,
de certa forma, mas a violência doméstica está
em todas as camadas sociais. Nas classes mais altas, as mulheres
não vão às delegacias e não denunciam
os agressores. Nós, mulheres negras e pobres, sofremos também
outras violências, não só a física, tem
a do próprio Estado contra o cidadão, pela falta de
condições mínimas de sobrevivência em
saúde e educação, que são acentuadas
pelo alcoolismo, por exemplo. O alcoolismo é uma doença
e está em todas as camadas sociais, mas está acentuada
nas classes populares. Falta tudo de uma maneira geral e quando
o cara chega em casa, ele bebe por frustrações, por
falta de grana... O ser humano já tem uma tendência
à violência, não é porque é pobre
que é violento. Isso é uma coisa que tem que ser discutida
mais entre as mulheres, embora estejam falando que as mulheres já
estão falando mais, ainda é muito pouco quando a gente
vê a opressão. E o cotidiano de dificuldades das mulheres
negras e pobres, em geral, é agravado por esta questão
da violência com os companheiros dentro de casa. E tem que
estar falando e denunciando.
Preta Gê - A primeira vez que
eu denunciei estava com 14 anos. Aos 12, entrei como aprendiz no
Arsenal de Marinha e fiquei lá 25 anos de minha vida. E teve
um negócio lá que era para tirar o pessoal da área
de saúde, eu era técnica de Patologia Clínica
lá dentro, não tinha nada a ver. Tinha um HCO (???)
que era só para os peões. O que aconteceu é
que começaram com um papo, “Ah, eu acho que você
vai rodar”. Aí eu fiquei pensando: “Poxa, se
eu perder o meu emprego, como é que eu vou fazer? Vou ter
que entregar o apartamento, não vou ter lugar para morar.
Minha mãe vai ter que voltar para casa de família.
E o que vou fazer?” Fiquei com aquilo na cabeça. Chegou
o dia da reunião e um rapaz chegou para mim, subtenente,
e disse: “E aí, pretinha, você quer continuar?”
Eu falei: “Tenho que continuar trabalhando, senão vou
morar na rua, minha mãe é empregada doméstica”.
E ele me disse: “Vamos ali atrás que você paga
um boquete e fica tudo bem”. E para mim, com 14 anos, boquete,
urina, era tudo muito nojento. Cheguei na reunião e disse:“Eu
não vou continuar porque o subtenente ali me pediu para pagar
um boquete. E para eu ter que pagar um boquete, vai me desculpar,
mas prefiro ser mandada embora logo agora”. Olha, ele foi
preso, e eu fiquei lá até o fim. (risos)
Negra Rô – Comigo aconteceu
o seguinte, tinha acabado de ter neném. Estava procurando
emprego, no ponto de ônibus e chegou um cara perto de mim
que trabalhava em empresa de ônibus frescões (com ar
condicionado), onde tem as trocadoras que trabalham de saia e salto
alto. E ele foi andando comigo, dizendo que ia me arrumar um emprego,
“Vamos lá, você vai ver”. E eu sempre fui
muito desconfiada e como ele estava a pé e desarmado, eu
fui indo para ver até onde ele ia. Fomos andando e paramos
num local e ele me disse: “Vou arrumar um emprego para você,
vou te dar uma prova com tudo marcadinho para marcar em cima e vai
ser aprovada para trabalhar no frescão, trabalhando das 7h
às 14h para ganhar 700 reais”. E eu disse: “Tudo
bem”. E ele falou: “Então, é o seguinte,
se você passar uma noite comigo o emprego já é
seu”. Fiquei passada e disse para ele enfiar o emprego no
cú que eu não era nenhuma piranha para ficar dando
para qualquer um. Virei as costas e fui embora. O cara acha que
só porque sou mulher tenho que dar para ele para conseguir
emprego?
Preta Gê – E, às
vezes, eles não arrumam emprego nenhum.
Mosca - Tem uma outra coisa que vejo
que fica muito escondido. É a violência contra as mulheres
dentro dos presídios femininos.
Negra Rô: muita violência
psicológica
Negra Rô - É. Ninguém
fala nisso.
Mosca - Participei de uma mesa em um
encontro para jovens no Clube Med e as meninas estavam denunciando
a violência dentro dos próprios educandários.
Teve uma jovem que morreu lá dentro, por ter resistido a
uma tentativa de estupro. Ela morreu e até hoje ninguém
sabe bem com aconteceu. Dizem que ela se matou, mas foi mentira.
Negra Rô - É mentira.
Mosca – E lá dentro, eles
pegam as melhorzinhas e tentam oferecer cigarro em troca de sexo,
em troca de alguma coisa, o que for. E isso não é
divulgado, as autoridades estão cientes e não fazem
nada. Acho isso um absurdo, deveria ter uma força feminina
do lado de fora para poder correr atrás e mudar as coisas
dentro dos presídios femininos.
Preta Gê - Mas os agentes que
olham as meninas são homens? Tem que mudar isso aí.
Presídio de mulher tem que ter mulher.
Mosca - É, mas tem homem também.
Negra Rô - E tem as mulheres
que abusam das mulheres também.
Célia Regina - Ontem tivemos
com um grupo de lésbicas que são apoiadas pelo Fundo
Afro do CEAP. E elas me falaram que está crescendo a violência
entre mulheres homossexuais por causa da falta de informação
sobre como se proteger de doenças sexualmente transmissíveis.
Acontece muito de casais de lésbicas sofrerem com infecções
de candidíase, um fungo que existe em toda flora vaginal,
mas que se não for controlado pode se transformar em uma
doença (na verdade o nome do fungo é Candida; candidíase
é a doença). E isso é motivo de briga, porque
elas acham que estão sendo traídas e não sabem
que, na verdade, é falta de exames e tratamento.
Taciane – Queria contar que eu
tive uma experiência com o pai de meu filho. Comecei a namorar
ele quando tinha 14 anos, era bonita, magrinha e tal.
Célia Regina - E ainda é
bonita, magrinha e tal, só está com esta bolinha aí
na barriga (Taciane está grávida de seis meses).
Taciane - E ele me dizia: “Se
você me largar ninguém vai te querer, você é
magra, é feia e com um filho ainda por cima”. E eu
comecei a me relaxar. E minha mãe me dizia para eu parar
com isso, que era só eu me arrumar que eu ia ver como as
pessoas iam me achar bonita. E ele ficava revoltado com minha mãe.
E eu ficava desanimada, até cansar daquilo tudo. Larguei
ele. E ele me agrediu, tinha marca até há pouco tempo.
Foi a primeira e a última vez. Hoje em dia, meu companheiro,
o Mosca, tem uma atitude totalmente diferente. Antes eu não
vivia, vegetava.
http://www.belezapura.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?from%5Finfo%5Findex=6&sid=5&infoid=437
|